EDITORIAL
QUARTA-FEIRA, 18 DE FEVEREIRO
Civilização sob pressão: Michael Hudson denuncia o avanço do capitalismo rentista. Economista afirma que juros, monopólios e privatizações travam a produção no Ocidente e intensificam a disputa global com China e Rússia
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247 - A ideia de que o mundo atravessa um período de decadência não é apenas retórica pessimista, mas um diagnóstico econômico e histórico que, segundo o professor Michael Hudson, ajuda a explicar o enfraquecimento do Ocidente e o surgimento de um novo conflito global. Para o economista, a civilização moderna estaria se afastando de suas bases produtivas e se aproximando de um modelo dominado por dívidas, juros e rendas improdutivas.
A análise foi apresentada em entrevista no YouTube, no programa conduzido por Glenn Diesen, em que Hudson discute o tema “O destino da civilização” e afirma que a crise contemporânea vai além de recessões ou ciclos de mercado: ela estaria ligada à transformação estrutural do capitalismo industrial em um sistema financeirizado, marcado pela supremacia de bancos, monopólios e grandes proprietários de ativos.
Hudson defende que existe uma diferença profunda entre o declínio de uma economia e o colapso de uma civilização. Em sua visão, o que está em jogo não é apenas uma desaceleração econômica, mas a corrosão do próprio projeto histórico que sustentou o avanço industrial e o desenvolvimento social no século XIX e no pós-guerra. “Há uma grande diferença entre o declínio de uma economia… e o declínio de uma civilização inteira”, afirma.
A ruptura entre produção e rentismo
O economista argumenta que o capitalismo industrial, tal como concebido pelos autores clássicos, tinha como meta reduzir o poder de grupos que acumulavam riqueza sem produzir. Para Hudson, a economia era vista como um sistema dividido em dois campos: o setor produtivo e o setor rentista. “Cada economia era dividida em duas partes. Havia uma parte de produção… e depois havia uma parte rentista”, diz.
Nesse modelo, o rentismo seria um “peso” sobre a economia real, pois eleva custos e reduz incentivos ao investimento produtivo. Hudson cita David Ricardo e John Stuart Mill para lembrar que, na economia política clássica, o excedente entre valor e preço era entendido como renda econômica, considerada “não merecida”. Ele destaca uma frase atribuída a Mill para ilustrar a lógica: “Os proprietários coletam rendas… enquanto dormem”.
